O sentido da morte física para o messianismo criacionista Por Valmir Neto

Resumo: Este artigo tem por objetivo compreender e interpretar o sentido da morte física para um grupo distinto e histórico, mas, que a nosso ver, está dividido em vertentes como judaísmo, islamismo e cristianismo. E isso se dá, devido, os dois primeiros, veem a morte, como algo desnaturalizada e ritualizada. Em contraposição, ao cristianismo, que vê a morte como uma ruptura natural da vida, sem ritualizá-la no espaço sagrado. Ao mesmo tempo, que, ambos, concordam que a morte opõe-se à busca incessante, no presente, das bênçãos divinais, em especial as materiais e as relacionadas à cura do corpo. Tornando-as galhos de uma mesma árvore, o messianismo.
Palavras-chave: crenças religiosas, esperança, ritos de morte.
O presente artigo constitui um desdobramento de trabalho de pesquisa feito sobre a noção de esperança entre vertentes, por assim dizer, de uma distinta filosofia, o ‘criacionismo’. Isso é claro, se formos racional ao encarar este conhecimento, como importante no estudo de problemas fundamentais relacionados à existência, ao conhecimento, à verdade, aos valores morais e estéticos, à mente e à linguagem.
Ao investigar como as referidas vertentes construíram a noção de esperança, a temática da morte apareceu fortemente, pois a finitude humana traz consigo a busca de respostas sobrenaturais que tragam consolo e que alimentem a esperança na vida após a morte.
Vale salientar ainda que, nesta pesquisa, consideramos a religião como um sistema cultural, como propõe o antropólogo norte-americano Clifford Geertz, um caminho interessante na medida em que nos pode proporcionar orientações gerais que nos auxiliem a tratar de questões específicas. Geertz (1978, p. 104) parte da idéia de que “a religião é um sistema de símbolos”. Essa definição implica outra que a explica: a de que os padrões culturais são “sistemas ou complexos de símbolos” (p. 106), daí a idéia de religião como um sistema cultural. Essa definição, no entanto, depende de um aprofundamento sobre o que se quer expressar com a palavra símbolo. Os símbolos são formulações plenas de significado porque remetem a experiências abstratas materializadas ou a idéias, conceitos, sensações e atitudes que foram condensadas e concretizadas. A cruz vazia para uma subdivisão do cristianismo, a saber, o protestantismo, por exemplo, simboliza duas lembranças de experiências distintas do Cristo: a morte e a vitória sobre ela.
Traçando outras características, que julgamos essenciais dos símbolos, Geertz (1978), nos ajuda a entender que eles são uma espécie de programa com códigos estabelecidos, que, por sua vez, funcionam como modeladores ou ordenadores de processos e comportamentos no âmbito público. De forma que, em razão de nortearem comportamentos e processos externos ou públicos, os símbolos são observáveis como qualquer outro fato social.

E sobre isso Geertz (p. 105) argumenta que: “Os atos culturais, a construção, apreensão e utilização de formas simbólicas, são acontecimentos sociais como quaisquer outros”. Sendo assim, pode se dizer que, os símbolos modelam a realidade e ao mesmo tempo se modelam a ela. Ou seja, são as duas faces da mesma “moeda” chamadas por Geertz (1978, p. 109) de “modelo ‘de’ e modelo ‘para’ a realidade”. E dentro dessa perspectiva, os símbolos religiosos modelam o mundo, “induzindo o crente a um certo conjunto distinto de disposições (tendências, capacidades, propensões, habilidades, hábitos, compromissos, inclinações) que emprestam um caráter crônico ao fluxo de sua atividade e à qualidade da sua experiência” (p. 109).

Conclusão, o símbolo religioso deve ser um inquestionável estatuto de verdade e, para que assim seja visto, essa verdade deve transcender as verdades da lógica humana, deve guardar um mistério que a vincule com o sobrenatural impedindo que seja de alguma forma ameaçada. Os símbolos, como ordenadores e orientadores da conduta dos indivíduos, precisam sempre ser alimentados e relembrados por essa verdade inquestionável porque se vierem a ruir, instalar-se-á o caos, que segundo Geertz (1978), significa a perda de sentido, a impossibilidade de interpretar e compreender os acontecimentos da vida.

Logo, a religião, como sistema cultural, mostra-se como uma fonte produtora de sentido e de respostas para os que a procuram e no que se refere à morte não é diferente. A esperança de uma outra vida ou da continuidade após a morte tem, na maioria das religiões, um espaço privilegiado onde se exercita a fé e se constrói o sentido de viver. A vinculação entre a vida presente e o porvir “celestial” é marcante na teologia messiânica. No entanto, há matizes dos mais diversos que caracterizam as inúmeras vertentes messiânicas. Assim, compreendê-los significa chegar ao núcleo das representações que fornece as referências de como pensar e sentir a realidade da morte.

A morte para o messianismo  

Antes de mais nada, vale salientar que, a etnografia, um estudo descritivo das relações sociais de um povo ou uma comunidade específica, pressupõe contato direto com o “outro”. E isto nos pareceu interessante na medida em que a realidade social de um determinado grupo, construída a partir de uma trama entre “atores” sociais, ocorre em um tempo e espaço em que o pesquisador pode adentrar. Além disso, a opção que se fez foi por uma “descrição densa” (Geertz, 1978, p. 17) do que se observa. Ou seja, não uma mera descrição do que se vê ou se ouve, mas uma descrição que considere as “teias de significados” (Geertz, 1978) existentes em toda e qualquer forma de expressão do homem pensado como ser social.

Então, vamos lá. Qual é a lógica de D’us quando cura aquele que não o teme e deixa morrer o fiel, o justo? Como explicar isso? Falta de fé? Vontade divina? Mistérios divinos? Todas essas perguntas levam a uma questão sumária: o que se pode esperar de D’us? Essa questão é crucial para compreender como os messiânicos, em comparação a qualquer outro argumento, constroem e vivenciam a esperança diante dos fatos da vida, em especial o da morte.

De uma forma geral, o ser humano que, recusa-se aceitar a simples ideia, nascermos para morrer. Inconscientemente, busca o real conceito de ser messiânico. Que por sua vez, não vê a morte como algo natural. Ao contrário, compreendemos que não fomos criados para morrer. Pois, a morte é vista como fruto de nossa desobediência aos mandamentos divinos. Como a revelação divina diz, a morte é o “salário do pecado”. O jardim do Éden é evocado e Adão, como representante da raça humana, tentado por um espírito maligno, depois de incorporar em uma serpente, e seduzir Eva, sua mulher, simbolizando assim, o erro fatal que levou a morte e seus desdobramentos, a toda humanidade. Dessa forma, por Adão entrou a morte, algo não natural, mas provocado pela desobediência ao Eterno, Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis. Ou seja, completamente desnaturalizada, a morte é ritualizada entre nós messiânicos.

O morrer, assim, é visto como um período de transição, um breve período no tempo da eternidade em que se atravessa uma ponte e, do outro lado, aguarda-se o reencontro, o prazer de uma nova visão da vida, sem doença, sem dor, sem tristeza. Este, no entanto, não é um simples reencontro. Significa o âmago de uma esperança que se funda no encontro, na eternidade, de todos os filhos de D’us.

A corporeidade, nessa questão, ganha um peso extraordinário entre nós messiânicos que, curiosamente, colocamos em segundo plano durante a vida aqui na terra. Pois, os corpos físicos serão, na teologia criacionista, revestidos de imortalidade, serão ressuscitados e receberão outra estrutura material, um material inacabável, impecável (no sentido literal da palavra), incorruptível, eterno.

Devemos então, expressar certo desprezo ao corpo mortal? Não! Isso se dá, devido uma leitura distorcida de subdivisões da vertente cristã, da qual, nos arrependemos amargamente, de por um tempo, ser prosélito. Onde nos cultos funerários, determinados pastores oficiantes, desprovidos da coerente interpretação dos textos sagrados, referirem-se à pessoa morta como “este corpo mortal” como sendo uma cápsula vazia, apenas um recipiente. Como se ali, estava apenas a representação da pessoa.

No entanto, hoje, esclarecido, mediante primeiramente, o auxilio interno do Espirito de D’us, e depois o auxilio externo da Hermenêutica, compreendemos que, o corpo não é desprezado pelo autentico messiânico, por não conter mais a alma. O corpo humano, mesmo após a morte, deve ser tratado com respeito e decência. E chegada a hora marcada para o funeral, será levado com decência para o cemitério e sepultado. Ou seja, a teologia criacionista, portanto, aponta para a fragilidade da vida terrenal e, assim, estabelece um código de negação e inferioridade dos prazeres carnais que, por serem temporários e efêmeros, em comparação com o gozo do Eterno, devem dar lugar a uma vida consagrada e interditos que reafirmem à alma usufruir o céu e a ressurreição de um corpo que se fará perfeito.

É claro que, esse conforto, recriação e rememoração da esperança, contudo, não anulará a dor do momento do adeus no ritual funerário. Pois o fechar do caixão leva as pessoas às lágrimas, como se ela fosse uma grande família que perdeu, de fato, um dos seus membros. E é assim que os autênticos messiânicos se vêem, como uma grande família em que os laços espirituais de parentesco (todos são filhos do Eterno D’us e, portanto, irmãos na fé) são intensamente valorizados.

Considerações finais

A morte para nós messiânicos é vista de forma bastante distinta, do que é difundido em múltiplas direções. Para nós messiânicos, ela aparece como uma transição, dolorosa e ritualizada, para a vida eterna e para o posterior reencontro dos que aguardam a redenção não só da alma, mas de toda a terra, que deve se fazer nova e restaurada, por meio da segunda vinda de Yeshua, Hamashia. A esperança constrói-se sobre essa base teológica, evocada nos rituais funerários do grupo religioso ou raiz para as três vertentes apresentadas no inicio do artigo.

A idéia de ressurreição é central na teologia criacionista, visto que possibilita ao fiel reafirmar sua fé na esperança da redenção completa do ser humano, por meio da ação divina que transformará os corpos mortais em imortais e incorruptíveis.

Referência Bibliográfica

Geertz, C. (1978). A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

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