A INFLUÊNCIA DA PRÁTICA DAS ARTES MARCIAIS NA REDUÇÃO DA AGRESSIVIDADE EM ADOLESCENTES Por Valmir Neto

INTRODUÇÃO

A agressividade, posteriormente, seguida da violência, entre outros, são temas mais vistos na mídia. É comum ver tais atitudes em estádios de futebol, em bares, em festas e no ambiente familiar. E o que se torna ainda mais comum é a prática dessas atitudes no ambiente escolar. Um reflexo da sociedade que cerca a escola e seus alunos, tornando esse problema mais amplo do que se imagina. Isso porque, as crianças de certa forma, acabam sendo influenciadas, sejam pela mídia, pelos amigos ou parentes a fazer o mesmo. Criando-se uma imagem positiva sobre essas práticas, onde, no linguajar infanto-juvenil, interpretam-se como “maneiras” e “legais”. Quanto aos que não fazem o mesmo, são tachados covardes. De forma que, todas as escolas apresentam casos de agressividade entre os alunos. Não importando se são colégios públicos ou colégios particulares, pois, a violência juvenil está sempre presente, seja por atos de danos ao patrimônio, ou por xingamentos aos docentes, entre outros.

Em contra partida a essa realidade, esta a filosofia das artes marciais que, ao contrário do que muitas pessoas pensam, pregam a não-violência e o auto-controle.

A AGRESSIVIDADE EM QUALQUER AMBIENTE SOCIAL 

Como definição inicial, da qual fundamentamos nossa opinião, consideramos agressividade uma forma de conduta com o objetivo de ferir alguém física e psicologicamente. Também Laplanche (1981, apud ANDERLE, VALSECHI e VEIT, 2007), define agressividade como uma tendência ou conjunto delas, onde se atualizam em condutas reais ou fantasiosas, direcionadas com a finalidade de danificar a outra pessoa, a humilhá-la e etc.
Ou seja, a agressividade já pode ser considerada como um problema de saúde pública, de acordo com Lopes Neto (2005). Como nos mostra o Mapa de Violência 2010 (NOVA ESCOLA, 2010), entre 1997 e 2007, o número de homicídios envolvendo jovens entre 14 e 16 anos subiu cerca de 30%.
De acordo com Monroe (NOVA ESCOLA, 2010), uma das causas da agressividade em adolescentes está nas mudanças fisiológicas decorridas da passagem da infância para adolescência. Essa passagem faz com que a serotonina (neurotransmissor responsável pelo bem-estar) seja reduzida pela metade, causando irritabilidade e dificuldades dos adolescentes em se sentir satisfeitos – marcas dessa fase.
Bom, entre outras causas da manifestação de comportamento agressivo em adolescentes estão as características culturais de nossa sociedade, devido o crescimento desordenado das cidades. Devido o que? A desestruturação da família, professores autoritários, seja da rede pública ou privada. A prática de desportos de rendimento, que motivam a competição exacerbada. Passando também, pelas dificuldades que a criança tem de se adaptar a determinado contexto social. (ANDERLE, VALSECHI & VEIT, 2007; FEIJÓ, 1992; LISBOA, s/d; LIPPELT, 2004; NOVA ESCOLA, 2010; SCHREIBER, SCOPEL & ANDRADE, 2005).
Ai vem os adeptos de uma interpretação distorcida, filosofarem que, a agressividade em doses moderadas faz parte do ser humano, estando presente em nossa vida e impulsionando-nos para o domínio do conhecimento sobre o mundo e para crescimento pessoal. Disseminando a ideia, de que, a agressividade possui certos benefícios, sendo essencial para nossa sobrevivência, desenvolvimento, adaptação e defesa.

A AGRESSIVIDADE É BENÉFICA, SEGUNDO O OLHAR DARWINISTA

O mundo científico comemora o bicentenário de nascimento do naturalista britânico Charles Robert Darwin, autor da obra A Origem das Espécies, que introduziu a Teoria da Evolução, por meio da seleção natural ou preservação de raças favorecidas na luta pela vida.
E neste período, seus seguidores, tem tentando desmistificar, a origem da humanidade. Pois segundo Darwin, os organismos vivos descendem de um ancestral comum, uma primitiva forma de vida seres unicelulares e microscópicos em lenta, gradual e constante evolução. De forma que, a teoria da seleção natural, baseia-se no fato de que os seres vivos sofrem mutações genéticas que são repassadas aos seus descendentes. Daí, as espécies evoluem, de geração em geração, até quando as que seguirem por um determinado ramo da árvore da vida não mais pertençam à mesma espécie do tronco de origem.
Os seguidores de Darwin, divididos entre a espiritualidade e o materialismo, dizem o seguinte: “o ser humano e os primatas podem derivar de um ancestral comum, o que não significa dizer que um descenda do outro”.
Veja que, o verbo ‘derivar’, conjugado por deles, não trata-se de uma regência múltipla, onde altera-se o leito, ou, desvia-se o rumo de algo. Por exemplo: "derivar as águas do rio (para outro curso)". Pelo contrario, conjugam o verbo transitivo indireto e pronominal, tratando o ser humano, como sendo proveniente, ter origem, proceder de um ancestral comum. 
Dizem ainda que, apesar do 97% de genes idênticos - unidade fundamental da hereditariedade entre o ser humano e o macaco - ainda assim, os 3% restantes são suficientes para distinguir os humanos como seres superiores, racionais, diferenciados e movidos pela fé.
Ou seja, quando adotamos esta definição, da origem da humanidade, nos contentando, com os míseros 3% restantes. Chegamos a conclusões, de acordo com Lima (1999), que, existe uma diferenciação entre agressividade e violência. De forma que, esta autora, vai ressaltar que a agressividade significa certa determinação direcionada a realizar uma tarefa, sendo assim, com o sentido diferente de sermos violentos para realizar a mesma tarefa. E ao citar Morais (1995), Lima (1999) esclarece que a agressividade está ligada ao instinto de sobrevivência que leva o animal à busca de alimento, água e segurança. Esse instinto é biológico sendo propriamente de animais, ou seja, seres irracionais. No entanto a violência está relacionada a uma intencionalidade, exigindo assim a inteligência. Sendo assim, os seres irracionais jamais serão violentos, porém ferozes. Neste caso, podemos agir com agressividade, mesmo que, este instinto, seja biologicamente de animais. Certo, praticantes de artes marciais? Só, não comportem se com violência, porque, somos seres racionais! Que ironia!


A AGRESSIVIDADE A AS ARTES MARCIAIS

Bom, para compreendermos as ‘artes marciais’ em sua totalidade, devemos remontar ao seu significado etimológico. Neste caso, o termo marcial vem do latim martiale (natural de Marte, o deus da Guerra para os romanos), mais para nós, entre outras definições, “próprio da guerra” ou "relativo a guerreiros". Enquanto arte trata-se da habilidade do ser humano, natural ou adquirida, de pôr em prática uma ideia. Sendo assim, o binômio de ‘arte marcial’, pode então, ser entendido como: a capacidade de se praticar e dominar os ensinamentos guerreiros com fins próprios para a obtenção de determinados resultados.
Atualmente, o termo arte marcial é simplesmente, sinônimo de luta, contextualizando primariamente, a agressividade, porém, no início dos tempos, não era bem assim. Pois, eram utilizadas pelos monges, primeiramente, para manter o corpo saudável e a mente sã. A sua utilização para a defesa pessoal (ou seja, uma habilidade suave), e o mais, a auto-defesa (aqui, já há os contra golpes de percussão), em casos extremos. Mas, hoje não é isso que se vê, pelo menos na mídia que mostra jovens lutadores, exteriorizando sua agressividade, em atos de violência.
O que nos leva, após duas décadas de prática e teoria, alcançando o título postulado de ‘professor de determinadas artes marciais’. Afirmar que, a autoridade daquele que instrui arte marcial, não pode está relacionada à manifestação de comportamento agressivo em seus praticantes. Mas, infelizmente, a agressividade estaria relacionada à importância que os professores de lutas dão a competição exacerbada (TRULSON, 1983 apud AMADERA, 2009). Este fato comprova o posicionamento de Feijó (1992) com relação à competição e as artes marciais, pois de acordo com o autor, as regras oficiais das artes marciais demonstram uma filosofia de cooperação, em vez de competição.
Os autores Trulson (1983, apud AMADERA, 2009) e Mesquita (s/d) fazem uma crítica negativa aos clubes e academias onde se treinam artes marciais. Isso porque, as artes marciais nestes espaços, na verdade, são lutas de caráter competitivo, que enaltecem o valor das vitórias, denegrindo os valores morais da filosofia marcial. Trulson (1983) inclusive, nos dá um alerta: o problema da propagação de academias de artes marciais ditas modernas. Pois as artes marciais modernas, que na verdade são lutas de caráter competitivo, possuem um potencial de aumentar o comportamento agressivo em adolescentes e, ao mesmo tempo, desenvolver traços negativos da personalidade, principalmente àqueles com certa tendência à delinquência. De acordo com Mesquita (s/d), as lutas ministradas em instituições de ensino deveriam atender aos aspectos formativos e educativos prioritariamente.
Segundo nossa humilde experiência, em auto defesa (do Wushu), e nesta ultima década, trabalhando com o desporto de auto rendimento (Capoeiragem do Rio de Janeiro), o torneio pode ser diferenciado, desde que, haja um trabalho psicossomático, com relação ao aspecto agressivo. De forma que, incansavelmente, aquele que instrui, deve desenvolver uma mentalidade de respeito mútuo, e obediência às regras. Por exemplo, a Associação de Capoeira Redenção, oferta o Curso de Formação em Capoeiragem: Estilo Livre. E os alunos deste curso, são acompanhados pela Liga de Capoeiragem Desportiva do Rio de Janeiro, que por sua vez, concede o status de ‘atleta’, a partir da categoria Infanto-juvenil, e promove torneios internos. Para que, os atletas, demonstrem o que tem aprendido no Curso de Formação: que o desafio está em vencer a “guerra interior” que é travada contra seus próprios desequilíbrios e desarmonias, ou seja, atitudes de violência. Para depois, de auto avaliados, aventurarem-se em torneios externos.







A AGRESSIVIDADE E O ADOLESCENTE

De acordo com Formiga et all (2008), os adolescentes, que trataremos neste artigo, por ‘infanto-juvenil’ (que esta, entre 11/12 anos, até 17 anos de idade), apresentam características biopsicossociais, sendo tais características obtém uma tendência à espontaneidade, passando a descarregar, quase que normalmente, seus impulsos agressivos direta ou indiretamente. Sendo assim, o infanto-juvenil, indicam-se vulneráveis e suscetíveis às influencias vindas do meio social. Logo procuram fora da família aspectos que almejam incorporar a sua realidade pessoal com os quais precisam lidar que constitui uma parte do seu “eu”, porém nem sempre esse “eu” encontra-se integrado a personalidade e a sociedade. Dessa forma, os adolescentes procuram se auto-afirmar e também a se identificar, podendo assim, compreender a sua rebeldia e revolta por meio das manifestações agressivas, permeando a abstração que ele mesmo faz e desenvolve de si mesmo acerca dos atributos, capacidades, objetos e atividades que tem e deseja alcançar.
De acordo com os resultados obtidos nestes 10 anos de Projeto Social, concluímos que as artes marciais podem auxiliar na redução de comportamento agressivo em adolescentes, principalmente na prática de jogos, onde se observou a grande incidência de tais manifestações. Pois os adolescentes que acompanhamos se mostraram, em sua maioria, capazes de se autocontrolar e de não agir/reagir agressivamente diante de uma situação de conflito.


REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS


CANDREVA et alli. A Agressividade na Educação Infantil: o Jogo como forma de intervenção. Universidade Estadual de Campinas, SP. 2009.

CHAGAS, Arnaldo. Adolescência – Um Fenômeno Contraditório.

DE SOUZA, Pedro Miguel Lopes. Agressividade em contexto Escolar. Lisboa. Universidade de Coimbra.

FEIJÓ, Olavo Guimarães. Corpo e Movimento: uma psicologia para o esporte. Rio de Janeiro. Shape. 1992.

FORMIGA, Nilton Soares et alli. Agressão e Autoestima: Um Estudo preliminar em Adolescentes Brasileiros. 2008.

LIMA, Luzia Mara Silva. Caminhando para uma nova (?) Consciência: Uma Experiência de Introdução da Arte Marcial na Educação. 1999. 331f. Tese (Doutorado em Educação) Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas.

ANDERLE, Salete S.; VALSECHI, Camila L. & VEIT, Maria C. Schwiter. Agressividade.

LOPES NETO.  Bullying - comportamento agressivo entre estudantes. Jornal de Pediatria Rio de Janeiro.  2005; 81 (5 Supl): S164-S172.

MONROE, Camila. Pau, Pedra, É o fim? Revista Nova Escola. São Paulo. Ano XXV, n° 235. p. 96-99. Setembro, 2010.

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