Retorno ao Curso de Formação em Capoeiragem: Estilo Livre

 No ano em curso, idealizado pelo Mestre-Capoeira Valmir Neto, da Associação de Capoeira Redenção e Presidente da Liga de Capoeiragem Desportiva do Rio de Janeiro - LCDRJ.



           O Grupo Redenção busca ensinar o mais próximo, do que, se conhece da Capoeiragem, construída nas regiões rurais e urbanas do que, hoje conhecemos por Estado do Rio de Janeiro. Mas, com o diferencial do contexto daquela época, nossa instituição de prática tem uma profunda preocupação, em ser um caminho para o crescimento de seus alunos, uma referência de superação, persistência e elevação psicomotora do ser humano.

O aluno inicia o Curso de Formação em Capoeiragem, com duração de 7 anos. Onde nos dois últimos anos, é exigido pelo Mestre Geral, a elaboração de um pré-projeto de iniciação esportiva, como Trabalho de Conclusão de Curso. De forma que, havendo alcançado os conceitos A, B ou C, é concedido pelo Mestre Geral, o Certificado de ALUNO FORMADO.

A partir daí, o aluno Formado, é livre para escolher ser apenas um Atleta-Capoeira da Capoeiragem Desportiva. Ou, requerer junto ao Conselho Diretor da LCDRJ, o título postulado de ‘Professor-Capoeira’, que o habilite a exercer docência, e se conseguir conciliar, também competir em sua categoria.

Porém, uma vez, recebido o título postulado de ‘Professor-Capoeira’, o agora, profissional de luta afro-brasileira, tem três anos, para atingir a perfeição técnica e espiritual dos conceitos deste estilo de Capoeiragem, para receber o titulo postulado de Contramestre, e com isso a outorga de DISCÍPULO.

No retorno as aulas do Curso de Formação em Capoeiragem: estilo livre. O Mestre Valmir Neto, trouxe a memoria de seus alunos, no ano em curso, do calendário gregoriano. Uma breve história da Capoeiragem do Rio de janeiro, com base, no desfecho da Guerra do Paraguai, no período que, a forma de governo brasileiro, ainda era monárquica. Mais precisamente, na segunda metade do século XIX.

Mestre Valmir Neto, lembra que, em 1865 o Brasil, junto com a Argentina e o Uruguai, declarou guerra ao Paraguai. De forma que, o exército brasileiro, ao formar seus batalhões, dentre eles, encontrava-se um imenso numero de capoeiras (ou, na linguagem desportiva, ‘capoeirista’). Despertando-nos o seguinte questionamento: como estes ‘marginais’, assim considerados, tanto pelo Império, quanto, pela República Brasileira. Foram parar lá?

Segundo a historiografia brasileira, muitos foram recrutados nas prisões; outros foram agarrados à força, nas ruas do Rio de Janeiro e das outras províncias. Por exemplo, segundo o Correio Paulistano, datado em 17/06/1890. Marcílio Dias (o herói da Batalha do Riachuelo, embarcado no Parnabyba), era rio-grandense, e foi recrutado quando capoeirava à frente de uma banda de música. Sua mãe, já idosa, rogou que não levasse seu filho. Mas, Marcílio partiu para a guerra e morreu legando um exemplo e seu nome.

Há registros também, de muitos escravos, sob a posse de donos de Engenhos de Cana e Lavouras de Café, foram recrutados. Da seguinte forma: Desprovido de recursos bélicos, e sem um exército suficientemente numeroso e instruído, sem condições de revidar adequadamente a ofensa recebida, o Imperador D. Pedro II expediu o Decreto nº 3.371, de sete de Janeiro de 1865o qual, apelando para os sentimentos do povo brasileiro, criava corpos militares para o serviço de guerra, com a denominação de "Voluntários da Pátria".

Mas, a esses negros africanos e afro-descentes, que ainda estavam na condição de ‘escravos’, fica a curiosidade: como alguém, que vivia nas piores condições humanas, se candidataria voluntariamente, para defender aqueles que, os escravizavam?

A resposta é a seguinte: O governo assegurava vantagens aos voluntários como prêmio de trezentos mil réis; lotes de terra com vinte e duas mil braças em colônias militares; preferência nos empregos públicos; patentes de oficiais honorários; assistência a órfãos, viúvas e mutilados de guerra.

Cada Província foi solicitada prover, no mínimo, 1% da sua população. Por outro lado, havia várias formas de se escapar da convocação: os aquinhoados faziam doações de recursos, equipamentos e empregados para lutarem em seu lugar. É dessa forma, que escravos também, vão parar no maior conflito armado internacional ocorrido na América do Sul.

Para ter-se uma ideia da pressão que o Império Brasileiro, impôs sobre os grandes e pequenos fazendeiros. Aqueles de menos posses alistavam seus parentes, filhos ou agregados; aos despossuídos só restava a fuga para o mato. E, neste último caso, temos uma possibilidade, de haver escravos fugitivos (africanos e afrodescendentes), vivendo a partir daí, a margem da sociedade. De onde vem o conceito de ‘marginal’. Pois, de forma voluntaria ou involuntária, devido ás circunstancias do momento, decidiram não integrar-se no meio social em que vivia, assim como, não partilhar costumes, valores e/ou normas de conduta predominantes.

        Porém, como se estendia a guerra, o uso de escravos para lutar em nome de seus proprietários virou prática corrente. E o Império Brasileiro, sabendo da fuga de escravos, em meio a esse conflito internacional, estrategicamente, passou a prometer alforria para os que se apresentassem para a guerra.

Acontece que, isto fez com que, mais escravos fugissem sós ou em bandos das fazendas, e se apresentassem aos recrutadores com nomes falsos, para despistar seus senhores. Já que, a qualquer momento, seriam enviados de qualquer forma, para lutar, representando aquele que o escravizava.

D. Pedro II novamente, politicamente bem aconselhado, há motivar todos os escravos (seja, aqueles em cativo, a lutar no lugar de seu senhor) ou (aqueles que, encontravam-se em fuga). Libertou todos os escravos das fazendas imperiais, como foi o caso, da Fazenda Imperial de Santa Cruz. Desde que, eles fossem voluntários da pátria, para lutar na guerra.

Conclusão, a guerra estendeu-se de dezembro de 1864 a março de 1870, e entre tantos voluntários da Pátria, os escravos africanos e afro-descentes sobreviventes, voltaram agora, transformados em “heróis”. Onde, aqueles que, não deram a sorte de engajar na polícia Imperial. Ou mesmo, viver a serviço das forças armadas. Passaram a flanar soltos pelas ruas do Rio de Janeiro. E formar, as populares ‘MALTAS’ (exímios grupos de negros e mulatos capoeiras).

Mas, por que, tornarem-se ‘meliante’?

Porque, exatamente desde 1870, o Império Brasileiro, começou a incentivar a entrada de trabalhadores imigrantes – principalmente europeus – para as lavouras do Sudeste. Tornando este período, em que convivem agora, lado a lado, escravos e assalariados. Os números da entrada de estrangeiros são eloquentes. Segundo o IBGE, entre 1871 e 1880, chegam ao Brasil 219 mil imigrantes. Na década seguinte, o número salta para 525 mil. E, no último decênio do século XIX, após a Abolição, o total soma 1,13 milhão.

Mas, por que tanto imigrante no Brasil?  A resposta é que, a implantação de uma dinâmica capitalista – materializada nos negócios ligados à exportação de café, como casas bancárias, estradas de ferro, bolsa de valores etc. – vai se irradiando pela base produtiva. Isso faz com que parte da oligarquia agrária se transforme numa florescente burguesia, estabelecendo novas relações sociais e mudando desde as características do mercado de trabalho até o funcionamento do Estado.

Para essa economia, o negro alforriado ou cativo era uma peça obsoleta. Além de seu preço ter aumentado após o fim do tráfico, em 1850, o trabalho forçado mostrava-se mais caro que o assalariado. Caio Prado Jr. (1907-1990), em seu livro História econômica do Brasil, joga luz sobre a questão:
“O escravo corresponde a um capital fixo cujo ciclo tem a duração da vida de um indivíduo; assim sendo, (...) forma um adiantamento a longo prazo do sobretrabalho eventual a ser produzido. O assalariado, pelo contrário, fornece este sobretrabalho sem adiantamento ou risco algum. Nestas condições, o capitalismo é incompatível com a escravidão”.

Em maio de 1888 veio a Lei Áurea e, 16 meses depois, como consequência direta das contradições que vivia o País, a República. Com a abundância de mão de obra imigrante, os ex-cativos acabaram por se constituir em um imenso exército industrial de reserva, descartável e sem força política alguma na jovem República.

Os fazendeiros – em especial os cafeicultores – ganharam uma compensação: a importação de força de trabalho europeia, de baixíssimo custo, bancada pelo poder público. Parte da arrecadação fiscal de todo o País foi desviada para o financiamento da imigração, destinada especialmente ao Sul e Sudeste. O subsídio estatal direcionado ao setor mais dinâmico da economia acentuou desequilíbrios regionais que se tornaram crônicos pelas décadas seguintes. Esta foi a reforma complementar ao fim do cativeiro que se viabilizou. Quanto aos negros, estes ficaram jogados à própria sorte.

A esse respeito, Celia Maria Marinho de Azevedo lembra que: 
“A força de atração destas propostas imigrantistas foi tão grande que, em fins do século, a antiga preocupação com o destino dos ex-escravos e pobres livres foi praticamente sobrepujada pelo grande debate em torno do imigrante ideal ou do tipo racial mais adequado para purificar a ‘raça brasílica’ e engendrar por fim a identidade nacional”.

Se fizermos uma leitura sociológica, entenderemos a revolta de alguns negros africanos e afro-descentes, que mesmo livres no Brasil. São levados a formar ‘maltas’, agir com violência, em prol de defender um território, um pedaço de terra. No intuito de não sentirem-se mais desterrado. É certo que vários fatores levam uma pessoa a praticar um crime, sejam eles sociais, familiares, psicológicos, morais, econômicos, éticos, emocionais.

No caso das maltas, foram duramente reprimidos pelo Estado até a quase extinção da capoeiragem no Rio de Janeiro. Apesar dos capoeiras, terem um papel heroico na Guerra do Paraguai na década de 1860, o Governo Republicano instaurado em 1889 continuou a política de repressão ao capoeira do período Imperial, deportando os considerados criminosos para o Arquipélago de Fernando de Noronha. E no ano seguinte, editou o Decreto nº 847 de 11 de outubro de 1890, criminalizando a prática da capoeiragem.

Em 1935 a capoeira deixou de constar como arte proibida com a queda do Decreto de 11 de outubro de 1890. Posteriormente, em 1937, a então Secretaria da Educação conseguia um registro oficial que qualificava seu curso de capoeira como Curso de Educação Física. Em 26 de dezembro de 1972 a capoeira foi homologada pelo Ministério da Educação e Cultura como modalidade desportiva.

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